D.O.G. – Uma canção de gratidão

•21 de julho de 2010 • 1 Comentário

 

Antes de você eu era só planos. E você me ensinou a viver.

Antes de você eu enxergava com meu cérebro. E você me ensinou a ver com o coração.

Antes de você eu já sabia de tudo. E você me ensinou a desaprender

Quando você chegou aqui, eu tinha planos racionalmente traçados, por meu cérebro, para um cão perfeito. Mas você, com suas imperfeições de cãozinho comprado na rua, ganhou meu coração.

Meu cérebro planejava um cãozinho que não latisse. Mas seu primeiro gritinho estridente e incontrolável conquistou meu coração.

Meu cérebro ansiava por um cão que obedecesse ao dono e que aprendesse truques. Mas sua adorável teimosia arrebatou meu coração.

Meu cérebro planejava um cãozinho que não mordesse. Mas quando senti pela primeira vez seus dentinhos no meu dedo eu soube, com certeza, que você já tinha meu coração.

Em todas as nossas disputas, você foi sempre o vencedor. E meu coração jubilava com o prêmio de consolação.

E agora, meu amiguinho, você me vence mais uma vez….

Meu cérebro tinha certeza de que a cirurgia seria simples e rotineira e que você voltaria logo para os meus braços, são e salvo. Mas você, meu pequenininho, tinha uma última traquinagem nas mangas e frustrou minhas expectativas racionais, levando com você o meu coração…

Eu sei que você quer que eu ria de sua gracinha. Que bata palmas e insista (sem resultados) para que você faça de novo. Mas, sem meu coração, eu sou só esse cérebro que luta herculeamente para segurar esta caneta em meio a lágrimas que, com vida própria, não param de escorrer.

Eu queria ter escrito a canção mais linda do mundo para ti, meu amiguinho. Mas acho que a minha canção mais linda já foi você.

Você foi minha alegria, minha esperança, minha estrelinha

Vai com Deus (G.O.D.) Banditinho! Um dia a gente se encontra e te dou a risada que prometi…

05/06/01 – 13/07/10

 

cal_hobb-raccoon9

[Exercício #1]

•31 de março de 2010 • 4 Comentários
Mama, just killed a man…

 

Se suas escolhas te levaram por um caminho de pedras que cortam seus pés a cada passo e deixam para trás um rastro de sangue: caminhe mesmo assim.

Se suas desilusões insistem em quebrar seus sonhos e em te impor uma realidade fria e insossa que suga cada gota de sua cor: sonhe mesmo assim.

Se quando olha para frente as cicatrizes do passado voltam a se abrir e turvam sua visão com o fel da experiência: olhe mesmo assim.

Se o medo de cair bambeia suas pernas e acimenta sua vontade, tornando quase impossível de se levantar: caia mesmo assim, levante mesmo assim.

Se tudo indica que, novamente, você caminha para o mesmo erro: erre mesmo assim.

Somos uma corda esticada do abismo à santidade, do macaco ao super-homem.

E, errar é humano, mas teimar é divino!

Anyway the wind blows….

[Terceira Intermissão]

•8 de dezembro de 2009 • 1 Comentário

Diamond in the rough

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Oito estórias. Somos feitos de oito estórias. Isso. Oito. Pode contar. Na verdade, é quase certo que perderá a conta…

Oito estórias que se repetem. Que se repetem eternamente – ou o equivalente a uma eternidade na pequena duração de uma vida. Oito estórias com diferentes nomes, diferentes rostos, diferentes durações, diferentes começos e diferentes fins. Mas que são sempre as oito estórias, sempre as mesmas oito estórias.

Oito estórias. Sim, somos limitados. Mas, às vezes, em momentos mais alegres, você as acaba vendo como oito chances – o que, por sua vez, passa a ser muito. Oito chances de acertar. Oito chances que, na verdade, nada têm de chances, nada têm de incerto, pois são estórias que você está cansado de conhecer. Afinal, elas são apenas oito.

Oito estórias. Apenas oito. E você ainda faz questão de esquecê-las. Mas não é totalmente sua culpa: uma pequenina estrela não consegue enxergar o universo que a contém, do mesmo modo que um peixe não pode entender o que é a água. Oito maneiras de não se entender nada. Oito chances de se perder.

Oito estórias. Oito intermináveis estórias. Mas também oito viradas de página. Oito vezes oito vezes oito vezes… Cada uma mais dolorosa que a anterior. Mas acho que deve ser assim: oito tentativas de acordar, oito tapas na bunda do recém-nascido. E o safanão só tende a ficar mais violento. Mas isso também parece necessário. O sono é por demais pesado…

Oito estórias. Oito heróis. Oito donzelas em perigo. Oito vilões. Oito aliados. Oito faces de um mesmo diamante. E o que são diamantes senão a cristalização da vida? Escrita em livros eternos, octaédricos…

Oito estórias. Inexoravelmente oito. Para sempre. Oito instantes e acabou.

Oito estórias. Oito. 8.

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Here comes the story of the Hurricane

•21 de setembro de 2009 • 1 Comentário

Quebrado por dentro, deixei aquela longa despedida cujos segundos duraram horas, as horas duraram dias e os dias duraram eternidades. A primeira parte da minha odisséia havia terminado sem mesmo que eu pudesse perceber, a não ser mais avançado em meu caminho. A vontade de olhar para trás era lacerante, mas eu sabia que não podia me render à tentação.  Eu devia seguir em frente… Ou será que não devia???

Meus pensamentos arrebentavam minha cabeça e eu não tinha forças para contê-los. Passado, presente e futuro se digladiavam e meu peito recebia todos os golpes. A dor era forte demais e não pude evitar cair sobre meus joelhos antes de alcançar o Caminho.

Levantei um pouco o rosto marcado pelo peso do mundo e das minhas próprias escolhas e lá estava uma visão estarrecedora que lancetou fundo um coração já despedaçado.

Era uma cidade. E dou ênfase ao tempo verbal que utilizo aqui: ERA. Isso porque o que se estendia por aquele vale que se abria no horizonte à minha frente era tudo menos uma cidade: de uma rua principal sobrava apenas um buraco enorme, cavado à força de uma explosão; das casas ao longo da rua só lembranças, estilhaços do que foi, um dia, o lar pacífico de várias pessoas pacíficas; do lago tranqüilo, antes o lar de cisnes indiferentes e o abrigo para as perigosas tardes de domingo, agora se abria apenas um açude de destroços e barro; da pacata e segura rotina diária sobravam apenas uma vaga fantasia na mente dos que sobreviveram ao estrago, que não conseguia vencer a dura realidade que se forçava à mente daquelas pobres criaturas, sem forças nem mesmo para se tornar uma lembrança.

Aquela visão me paralisou e nem mesmo a arisca raposa foi capaz de notar a aproximação de um cidadão que subia a colina para, talvez, se colocar em uma posição que lhe permitisse ter a visão que ora se abria tão crua aos meus olhos já tão castigados. Mas algo me chamou a atenção: o cidadão não possuía o semblante desesperado que se esperava de alguém que havia perdido, senão tudo, muita coisa. Vinha calmo, passo-a-passo, indiferente (?), resignado (?), com algo que hoje eu podia jurar se tratar de um sorriso.

“O que te aflige meu jovem?” – Como podem ver, eu não compartilhava do mesmo semblante do meu interlocutor.

“O que aconteceu aqui?” – Foi só o que pude esboçar.

“Furacão.” – Respondeu, conciso, sem que eu conseguisse delinear qualquer traço fosse de tristeza, fosse de indignação ou mesmo de resignação em seu tom.

Já bastante fragilizado, não pude conter as lágrimas que já rolavam antes mesmo da confirmação daquilo que eu já havia conseguido deduzir dos estragos.

“Ora, não chore, meu amigo. Realmente um furacão passou por aqui. Realmente nada sobrou de nossa cidade, nossas casas, nosso lago. Realmente fomos arrancados de nosso próprio eixo. Mas tudo não durou mais que um instante. Estamos todos aqui, sobrevivemos a tudo e vamos continuar nossa vida após reconstruir tudo. Talvez possamos agora construir aquele parque que nunca tivemos coragem de construir, ou mesmo erguer uma prefeitura mais bonita. Ora, por favor, não chore! Sério! O furacão já passou!”

E eu conhecia tudo aquilo que ele me dizia. Eu sabia que a vida continuaria no vale, que a cidade se reconstruiria em pouco tempo, que, sim, havia estragos, mas também a possibilidade de mudar tudo aquilo que antes se mantinha mais por inércia do que por desejo. Talvez mesmo passassem a dividir suas vidas em antes e depois do furacão. Talvez mesmo se esquecessem de como viviam antes daquele furacão. E a verdade é que um furacão nunca vai embora sem levar sua fração, pois não só traz consigo aquilo que, inexoravelmente, despeja no que encontra em seu caminho, mas também leva consigo aquilo que, violentamente, arranca daqueles que ousam cruzar com ele. A verdade é que só se pode amar um furacão de longe.

Mas, apesar de não poder expressá-lo em voz alta, o fato é que eu não chorava pela cidade ou por seus cidadãos. E, apesar de meus olhos estarem paralisados sobre o que antes era a cidade, minha visão se estendia muito mais ao longe. As lágrimas rolavam ao mesmo tempo em que uma pergunta calada se esboçava em meu coração:

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“E para onde vão os furacões?”

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Sim, o mundo está ganhando…

I’ll be the one who’ll break my heart

•12 de junho de 2009 • 1 Comentário

1ª Parte – A estrela

Lá estava ele de novo, em seu mundo cinza de faz-de-conta. Entediado, estressado, estilhaçado. Mais um dia cinza começava e era difícil acordar, como sempre.

Lá fora, tudo se esforçava para tentar convencê-lo de que aquele era o “mundo real”, mas sua esperança e sua teimosia infantil pareciam ser mais fortes. Coitado.

Acreditava piamente que aquilo tudo não passava de um sonho. Um sonho ruim, daqueles difíceis de acordar, mas ainda um sonho. E, portanto, vivia como num sonho. Ausentava-se de vez em quando, como se perdido em outros devaneios. Voltava confuso e envergonhado, o que era estranho em um sonho, mas, como disse, achava que aquele era um sonho ruim – daqueles em que você não é o herói.

Como em todo sonho ruim, difícil de acordar, o sonhador depositava toda sua esperança no momento do despertar – ele viria.

Foi então que ela apareceu como um farol na escuridão do horizonte. Seu brilho não era dos mais fortes e facilmente poderia lhe ter passado despercebido.

Mas não passou.

Lá estava ela. Pequena, solitária, única. A sua estrela. Frágil, relutante, pequenina na imensidão roxa daquele céu de faz-de-conta, com suas imensas nuvens cinza de ilusão. Mas era sua estrela. Ele a havia achado. E ela o havia esperado.

Afinal, o mundo ainda não havia ganhado. Pelo menos, ainda não….

The truth lies…

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2ª Parte – A florzinha

Acordei ainda ofegante. A corrida exaustara minhas forças. Estava em um deserto – um grande mar de areia e esterilidade. Não sabia como acabara chegando nele, mas me conformava com o meu destino. Foi então que, andando naquele braseiro, já sedento, em um misto de febre e exaustão, que a vi.

À primeira vista não passou de um borrão, que quase dispensei como uma miragem, mas desde aquele momento eu já havia sido fisgado, desde aquele momento a Fortuna já estava novamente com sua roda sobre minha cabeça.

Curioso (e a curiosidade acaba com as nove vidas de um gato em um piscar de olhos) acabei me aproximando; e, para minha surpresa, eis que me deparo com a flor mais linda que já havia visto na minha vida. Suas pétalas exuberantes voltavam-se para o Sol escaldante do deserto e, apesar de sua aparência tão frágil e delicada, a florzinha não parecia mesmo se incomodar com os poderosos raios solares que impiedosamente incidiam diretamente sobre ela. Mas não era em sua aparência externa que residia sua verdadeira beleza: mais fundo em suas pétalas, por trás de sua bela carapaça e de seus mais afiados espinhos ela escondia o seu Tesouro mais precioso. Um Tesouro radiante que ela tentava desesperadamente esconder expondo-se ao brilho dos raios solares. Um Tesouro que continha toda sua fragilidade e essência. Um Tesouro que, mais tarde, pude saber que já havia exposto a um outro alguém que não soube lidar com a riqueza que havia lhe sido oferecida. Um Tesouro que, por ironia do Destino, eu havia conseguido vislumbrar naquela primeira vez em que a vi, mesmo que tão de relance.

Antes de continuar devo explicar algo. Desde que me lancei na busca da minha rosa eu descobri muita coisa sobre as flores. Conheci na teoria e, muitas vezes de perto, os mais diversos tipos dessas mais belas criações divinas. Conhecia de cor todos os cuidados que cada uma necessitava, o quanto exato de água que cada uma exigia, como reconhecer os botões mais belos que se escondiam por trás das mais afugentadoras roupagens. Conhecia as combinações de cores, os perfumes, a sensação ao toque. Conhecia também as defesas que as mais belas flores construíam ao seu redor. Conhecia, assim, os espinhos, os venenos, as ilusões de ótica, os subterfúgios. E conhecia também os meios para me desvencilhar de todas essas proteções.

Tudo isso eu conhecia. Nada disso me valeu quando me deparei com aquela flor.

Pouco a pouco ela ia penetrando, uma a uma, as minhas defesas. Toda vez que levantava minhas armas, eis que novamente elas estavam ao solo. E eu me via desarmado, desprotegido, em sua presença. Além disso, apesar de conhecer todos seus espinhos, lançava-me como um cego a eles, que, a cada vez, dilaceravam mais profundamente meu coração.

Em vão eu tentei me desvencilhar algumas vezes no início. Havia muito tempo em que a razão não me vencia e, ao meu lado, a raposa permanecia com minha única e lacônica companheira de viagem. Por um instante, lembrei de uma antiga promessa a mim mesmo: “Nunca mais cair de novo”. Mas promessas são tão fortes para o coração quanto uma corrente de papel é para um cão raivoso.

Como ainda estávamos em um deserto e ela ainda era uma florzinha, logo vesti meu manto de herói (que, perto dela, não era capaz de esconder por completo o bobo que continha) e, como um fiel jardineiro, passei a cuidar dela todos os dias.

Ela também cuidava de mim e isso me tocou de uma maneira inesperada. Como meu manto de herói não conseguia brilhar tanto ao seu lado, não pude assumir por completo meu já tradicional papel e, pela primeira vez há bastante tempo, permiti que alguém também cuidasse de mim, permiti que vislumbrasse o menino por trás do herói. Pela primeira vez o rei desceu de seu trono. Pela primeira vez o dragão entregou sua crina para o afago.

E tudo isso ela via. E, como recompensa, em alguns raros momentos, ela me permitia também vislumbrar o seu Tesouro, em um sorriso que eu tentava, em vão, manter para sempre. Mas nada é para sempre…

Rei deposto, dragão domesticado, manto de herói sem efeito, em pouco tempo ela estaria perto também do meu Tesouro. Mas ela notava o quanto eu havia me fragilizado e não forçava a passagem. E para compensar a nudez do rei desvelado, e a exposição do menino por trás do herói, ela costurou-me um novo manto: em pouco tempo, eu me tornava o seu Príncipe.

E eu era extremamente feliz naqueles breves, mas infinitos, momentos.

All flowers in time bend towards the sun…

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3ª Parte – A raposa

Não em pouco tempo descobri também nela uma igual. Descobri que, como eu, ela também gostava de correr sobre as quatro patas com o vento no rosto e as presas à mostra. Como eu, vestia um manto de raposa; e o seu era ostentoso como suas pétalas ao Sol.

Nessa forma corremos por diversas vezes, deixando nossas marcas um no outro, tomando menos cuidado.

Nessa forma nos entendíamos por completo, mas sua duração era de uma fração de segundos. Logo descobri que ela não gostava de assumir esse manto e por muito tempo eu me perguntei o porquê disso; mas minhas perguntas sempre ficavam para depois enquanto eu me preocupava somente em aproveitar o máximo possível aqueles breves momentos em que corríamos juntos.

Foi então que comecei a notar algo que há muito tempo já havia começado, mas que, confesso, havia propositalmente ignorado em favor de uma esperança quase que infantil. Pouco a pouco, a raposa-flor se afastava de mim. Pouco a pouco, eu a sentia mais distante, arredia, assustada, selvagem. Pouco a pouco, o nosso processo de cativar ia prosseguindo em direção contrária.

Em um primeiro momento achei que isso ocorria, pois havíamos já começado “pelo fim” e isso, por algum tempo, alimentou um pouco mais aquela minha infantil esperança de conseguir revertê-lo. Mas não era isso.

Pouco a pouco, ficávamos mais distantes e não havia nada que eu podia fazer. Nada que o herói, a raposa ou o príncipe podiam fazer.  Já bastante machucado pelos espinhos e pela exaustão da corrida que me fez chegar àquele deserto, com as defesas baixas e as armas prostradas, não pude conter aquele último baque que atingiu, em cheio, meu coração.

Pouco a pouco, notei finalmente o que estava por trás de tudo. Por mais iguais que parecêssemos, éramos diferentes em nossa própria constituição. Não só diferentes, mas verdadeiramente opostos:

Ali estava eu um sofista em pele de raposa – podia grunhir, rosnar, mostrar as presas e correr em quatro patas; podia mesmo relembrar uma época em que fui só uma pequena raposa; mas ainda era um sofista fascinado com seu manto de pele alaranjada. Odiava a razão e pregava o instinto, mas o fazia como um estrangeiro que tenta, em vão, renegar suas próprias crenças em favor da simpatia do anfitrião. Buscava a espontaneidade, mas ficava limitado a uma condescendência irritante.

Ela era o meu exato contrário. Era uma raposa em pele de sofista – podia racionalizar, explicar, calcular, renegar suas emoções; mas o fazia como um nativo que abraça a religião do conquistador com o fervor de um crente fanático sem, contudo, notar que, por trás disso, arde o fogo de seu próprio fervor ancestral. Buscava o desprendimento, em favor de objetivos bem traçados, mas se arriscava a beirar a frieza e rigidez.

Não havia mais como continuar, por mais que eu tentasse forçar a marcha. As nossas diferenças cismavam em aumentar o abismo entre nós, e, para vencê-lo, eu precisava exatamente daquilo que ela não podia me dar.

Foi nesse dilema que desci com minha raposa-flor a colina violeta,

E, lá, sentamos na neve.

O tempo inteiro ela se manteve em silêncio.

“Se você me ama, por quê não me deixa saber?” – Lancei, por fim, a pergunta.

“Se você me ama, por quê não me deixa ir?” – Respondeu prontamente.

O susto foi muito grande, enquanto eu limpava a areia de meus olhos e olhava para os fortes grilhões que amarravam seus frágeis caules ao meu braço. Como sofista que era, não havia conseguido notar como a liberdade, para mim, não passava de um conceito filosófico, enquanto que, para ela, como raposa, era uma necessidade vital.

Com lágrimas nos olhos, um aperto na garganta e uma dor dilacerante no peito, soltei as amarras.

Com esmero, o Príncipe-jardineiro podou sua florzinha, ajeitou suas pétalas, levantou o cercadinho ao seu redor e certificou-se de ter regado suficientemente suas raízes. Então, sem querer olhar para trás, recolheu suas ferramentas, deixou sua flor aos cuidados do Sol, e retomou a busca por sua rosa.

Em um outro mundo, uma estrelinha buscava, com todas suas forças, manter seu fraco brilho na escuridão indiferente do céu…

A maiden knight–to me is given
Such hope, I know not fear;
I yearn to breathe the airs of heaven
That often meet me here.
I muse on joy that will not cease,
Pure spaces clothed in living beams,
Pure lilies of eternal peace,
Whose odours haunt my dreams;
And, stricken by an angel’s hand,
This mortal armour that I wear,
This weight and size, this heart and eyes,
Are touch’d, are turn’d to finest air.

[Segunda Intermissão]

•11 de março de 2009 • 2 Comentários

One, two, three, four, tell me that you love me more

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Uma só estrela. Uma estrela é o que você precisa. Para mudar.

Sozinha, você navega pelo universo. Única.

E você precisa de uma só estrela. Uma só estrela e é isso aí. Você muda.

. .

E nem precisa ser uma estrela grande. Uma pequenina já basta.

As mudanças não são feitas de grandes explosões dramáticas.

Elas vêm devagarinho, sorrateiras, passam por todas as suas defesas. Como o sono.

E, quando você menos espera… Pronto. Você já mudou. Não há como voltar.

. . .

Aí resta a grande fraqueza da escuridão.

Por maior que seja seu domínio, basta apenas um ponto. Um único ponto de luz.

Uma só estrela. É tudo que você precisa. Uma só estrela para você perceber.

. . . .

Sozinha, você navega pelo universo. Única.

Lembre-se disso e sua estrela virá.

Dançando.

Where Gods get lost, beneath the Southern Cross

•1 de fevereiro de 2009 • 1 Comentário

And as we wind on down the road…


instante. Apenas um instante. Correndo. Cronos ao alcance de um… Instante. Em pouco tempo. A estrada em chamas.

Se não faço sentido é porque estou correndo. Correndo o mais rápido que posso. Correndo sobre quatro patas. Feridas. Exausto. Ofegante.

Tudo aconteceu tão rapidamente, alguns instantes atrás. Os instantes por aqui duram anos, eras…

… our shadows taller than our souls …


Em um minuto estava ali, sentado, catando os cacos com uma auto-condescendência que me confortava. A raposa brincava ao meu redor, raposamente indiferente. Em outro momento, aquela mão me ajudava a levantar, um pé me empurrava ao chão de novo – só pra me “acordar daquilo”. Novamente a mão reconfortante… e aquele sorriso.

Talvez a coisa mais aterradora que eu já tenha visto até então: aquele sorriso. Humilhante, hipnotizador, extraordinário, terrível. Por um instante (e, repito, os instantes aqui se contam geologicamente) me senti como um inseto atraído pela fascinante e fatal luz, ou como um camundongo preso no olhar de uma serpente: o destino escancarado aos meus olhos, mas sem poder me mover para o outro lado e sem querer desviar o meu olhar.

Na verdade, não estou sendo completamente sincero. Já sabia o que me esperava mesmo antes da primeira vez em que caminhei por esta estrada. Mas essas são aquelas coisas que você sempre “sabe-sem saber” ou “sabe-sem querer saber”.

… there walks a lady we all know …


“Não existem erros”, uma voz antiga e maternal repetia aos meus ouvidos. Mas é difícil ouvir realmente algo quando você está com medo e correndo. Cada parte de meu corpo doía e adormecia, fazendo com que minha mente se alternasse indefinidamente. Tudo pedia (exigia) atenção. Não se pode dar atenção a tudo.

A verdade é que enquanto me divertia com minha auto-piedade não pude notar meus passos – ou será que a Estrada é que havia mudado ao redor de meus pés? – e, em um instante, lá estava eu: em uma encruzilhada.

O medo tomava meu coração como um animal encurralado que tenta desesperadamente cavar sua saída a unhas e dentes. Devo uma explicação: talvez não haja lugar mais perigoso em uma estória do que uma encruzilhada. Locais onde deuses se perdem, onde são pegos em últimas tentações, onde autor e personagem se confundem. Territórios Dele: o-que-anda-na-curva-do-mundo, o-senhor-das-travessias, Ele.

… that shines white light and wants to show …


Nessas horas não há muito o que fazer. Não há preparação, não há como voltar atrás. Você está sozinho. Então você olha, decide, fecha os olhos, e segue. É só isso que dá para fazer aqui, na Fronteira. E foi o que fiz. Porém, antes, deixei a única possível oferenda ao altar do guardião desses territórios: mais uma pedra para montar o pequeno caern que enfeita o centro da cruz e que mostra quantas escolhas foram feitas ali. Ou será que servem como lembranças daqueles que se perderam para sempre?

No momento em que toma a decisão, você já não está mais na Encruzilhada. Novamente, o caminho se abria à minha frente. Por um milésimo de segundo ainda tentei respirar aliviado, mas eis que percebi o som. No começo bem longe, mas ele se aproximou rapidamente. Seus pés de crocodilo se movem mais rápido do que pensamos. “Tic… Tac…” O som é lento, mas contínuo, incessante, enlouquecedor. Tic… Tac… Tic… Tac… Tic… Tac…………………………

Então corri. O mais rápido que pude. Sim, o desespero falou mais alto. Corri como uma raposa caçada por cães e caçadores inexoráveis.

Exausto, no fim de minhas forças, algo dirigiu meu olhar para cima (já notaram como nunca olhamos para cima?) e minha mão instintivamente correu ao bolso de meu gibão. Lá estava ele, onde sempre esteve, por pouco não esquecido: o bilhete. E dentro dele, o segredo, que de tão simples é também tão fácil de esquecer.

… how everything still turns to gold

And if you listen very hard

The tune will come to you at last

When all are one and one is all

To be a rock and not to roll


Não existem erros…