1ª Parte – A estrela
á estava ele de novo, em seu mundo cinza de faz-de-conta. Entediado, estressado, estilhaçado. Mais um dia cinza começava e era difícil acordar, como sempre.
Lá fora, tudo se esforçava para tentar convencê-lo de que aquele era o “mundo real”, mas sua esperança e sua teimosia infantil pareciam ser mais fortes. Coitado.
Acreditava piamente que aquilo tudo não passava de um sonho. Um sonho ruim, daqueles difíceis de acordar, mas ainda um sonho. E, portanto, vivia como num sonho. Ausentava-se de vez em quando, como se perdido em outros devaneios. Voltava confuso e envergonhado, o que era estranho em um sonho, mas, como disse, achava que aquele era um sonho ruim – daqueles em que você não é o herói.
Como em todo sonho ruim, difícil de acordar, o sonhador depositava toda sua esperança no momento do despertar – ele viria.
Foi então que ela apareceu como um farol na escuridão do horizonte. Seu brilho não era dos mais fortes e facilmente poderia lhe ter passado despercebido.
Mas não passou.
Lá estava ela. Pequena, solitária, única. A sua estrela. Frágil, relutante, pequenina na imensidão roxa daquele céu de faz-de-conta, com suas imensas nuvens cinza de ilusão. Mas era sua estrela. Ele a havia achado. E ela o havia esperado.
Afinal, o mundo ainda não havia ganhado. Pelo menos, ainda não….
The truth lies…
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2ª Parte – A florzinha
Acordei ainda ofegante. A corrida exaustara minhas forças. Estava em um deserto – um grande mar de areia e esterilidade. Não sabia como acabara chegando nele, mas me conformava com o meu destino. Foi então que, andando naquele braseiro, já sedento, em um misto de febre e exaustão, que a vi.
À primeira vista não passou de um borrão, que quase dispensei como uma miragem, mas desde aquele momento eu já havia sido fisgado, desde aquele momento a Fortuna já estava novamente com sua roda sobre minha cabeça.
Curioso (e a curiosidade acaba com as nove vidas de um gato em um piscar de olhos) acabei me aproximando; e, para minha surpresa, eis que me deparo com a flor mais linda que já havia visto na minha vida. Suas pétalas exuberantes voltavam-se para o Sol escaldante do deserto e, apesar de sua aparência tão frágil e delicada, a florzinha não parecia mesmo se incomodar com os poderosos raios solares que impiedosamente incidiam diretamente sobre ela. Mas não era em sua aparência externa que residia sua verdadeira beleza: mais fundo em suas pétalas, por trás de sua bela carapaça e de seus mais afiados espinhos ela escondia o seu Tesouro mais precioso. Um Tesouro radiante que ela tentava desesperadamente esconder expondo-se ao brilho dos raios solares. Um Tesouro que continha toda sua fragilidade e essência. Um Tesouro que, mais tarde, pude saber que já havia exposto a um outro alguém que não soube lidar com a riqueza que havia lhe sido oferecida. Um Tesouro que, por ironia do Destino, eu havia conseguido vislumbrar naquela primeira vez em que a vi, mesmo que tão de relance.
Antes de continuar devo explicar algo. Desde que me lancei na busca da minha rosa eu descobri muita coisa sobre as flores. Conheci na teoria e, muitas vezes de perto, os mais diversos tipos dessas mais belas criações divinas. Conhecia de cor todos os cuidados que cada uma necessitava, o quanto exato de água que cada uma exigia, como reconhecer os botões mais belos que se escondiam por trás das mais afugentadoras roupagens. Conhecia as combinações de cores, os perfumes, a sensação ao toque. Conhecia também as defesas que as mais belas flores construíam ao seu redor. Conhecia, assim, os espinhos, os venenos, as ilusões de ótica, os subterfúgios. E conhecia também os meios para me desvencilhar de todas essas proteções.
Tudo isso eu conhecia. Nada disso me valeu quando me deparei com aquela flor.
Pouco a pouco ela ia penetrando, uma a uma, as minhas defesas. Toda vez que levantava minhas armas, eis que novamente elas estavam ao solo. E eu me via desarmado, desprotegido, em sua presença. Além disso, apesar de conhecer todos seus espinhos, lançava-me como um cego a eles, que, a cada vez, dilaceravam mais profundamente meu coração.
Em vão eu tentei me desvencilhar algumas vezes no início. Havia muito tempo em que a razão não me vencia e, ao meu lado, a raposa permanecia com minha única e lacônica companheira de viagem. Por um instante, lembrei de uma antiga promessa a mim mesmo: “Nunca mais cair de novo”. Mas promessas são tão fortes para o coração quanto uma corrente de papel é para um cão raivoso.
Como ainda estávamos em um deserto e ela ainda era uma florzinha, logo vesti meu manto de herói (que, perto dela, não era capaz de esconder por completo o bobo que continha) e, como um fiel jardineiro, passei a cuidar dela todos os dias.
Ela também cuidava de mim e isso me tocou de uma maneira inesperada. Como meu manto de herói não conseguia brilhar tanto ao seu lado, não pude assumir por completo meu já tradicional papel e, pela primeira vez há bastante tempo, permiti que alguém também cuidasse de mim, permiti que vislumbrasse o menino por trás do herói. Pela primeira vez o rei desceu de seu trono. Pela primeira vez o dragão entregou sua crina para o afago.
E tudo isso ela via. E, como recompensa, em alguns raros momentos, ela me permitia também vislumbrar o seu Tesouro, em um sorriso que eu tentava, em vão, manter para sempre. Mas nada é para sempre…
Rei deposto, dragão domesticado, manto de herói sem efeito, em pouco tempo ela estaria perto também do meu Tesouro. Mas ela notava o quanto eu havia me fragilizado e não forçava a passagem. E para compensar a nudez do rei desvelado, e a exposição do menino por trás do herói, ela costurou-me um novo manto: em pouco tempo, eu me tornava o seu Príncipe.
E eu era extremamente feliz naqueles breves, mas infinitos, momentos.
All flowers in time bend towards the sun…
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3ª Parte – A raposa
Não em pouco tempo descobri também nela uma igual. Descobri que, como eu, ela também gostava de correr sobre as quatro patas com o vento no rosto e as presas à mostra. Como eu, vestia um manto de raposa; e o seu era ostentoso como suas pétalas ao Sol.
Nessa forma corremos por diversas vezes, deixando nossas marcas um no outro, tomando menos cuidado.
Nessa forma nos entendíamos por completo, mas sua duração era de uma fração de segundos. Logo descobri que ela não gostava de assumir esse manto e por muito tempo eu me perguntei o porquê disso; mas minhas perguntas sempre ficavam para depois enquanto eu me preocupava somente em aproveitar o máximo possível aqueles breves momentos em que corríamos juntos.
Foi então que comecei a notar algo que há muito tempo já havia começado, mas que, confesso, havia propositalmente ignorado em favor de uma esperança quase que infantil. Pouco a pouco, a raposa-flor se afastava de mim. Pouco a pouco, eu a sentia mais distante, arredia, assustada, selvagem. Pouco a pouco, o nosso processo de cativar ia prosseguindo em direção contrária.
Em um primeiro momento achei que isso ocorria, pois havíamos já começado “pelo fim” e isso, por algum tempo, alimentou um pouco mais aquela minha infantil esperança de conseguir revertê-lo. Mas não era isso.
Pouco a pouco, ficávamos mais distantes e não havia nada que eu podia fazer. Nada que o herói, a raposa ou o príncipe podiam fazer. Já bastante machucado pelos espinhos e pela exaustão da corrida que me fez chegar àquele deserto, com as defesas baixas e as armas prostradas, não pude conter aquele último baque que atingiu, em cheio, meu coração.
Pouco a pouco, notei finalmente o que estava por trás de tudo. Por mais iguais que parecêssemos, éramos diferentes em nossa própria constituição. Não só diferentes, mas verdadeiramente opostos:
Ali estava eu um sofista em pele de raposa – podia grunhir, rosnar, mostrar as presas e correr em quatro patas; podia mesmo relembrar uma época em que fui só uma pequena raposa; mas ainda era um sofista fascinado com seu manto de pele alaranjada. Odiava a razão e pregava o instinto, mas o fazia como um estrangeiro que tenta, em vão, renegar suas próprias crenças em favor da simpatia do anfitrião. Buscava a espontaneidade, mas ficava limitado a uma condescendência irritante.
Ela era o meu exato contrário. Era uma raposa em pele de sofista – podia racionalizar, explicar, calcular, renegar suas emoções; mas o fazia como um nativo que abraça a religião do conquistador com o fervor de um crente fanático sem, contudo, notar que, por trás disso, arde o fogo de seu próprio fervor ancestral. Buscava o desprendimento, em favor de objetivos bem traçados, mas se arriscava a beirar a frieza e rigidez.
Não havia mais como continuar, por mais que eu tentasse forçar a marcha. As nossas diferenças cismavam em aumentar o abismo entre nós, e, para vencê-lo, eu precisava exatamente daquilo que ela não podia me dar.
Foi nesse dilema que desci com minha raposa-flor a colina violeta,
E, lá, sentamos na neve.
O tempo inteiro ela se manteve em silêncio.
“Se você me ama, por quê não me deixa saber?” – Lancei, por fim, a pergunta.
“Se você me ama, por quê não me deixa ir?” – Respondeu prontamente.
O susto foi muito grande, enquanto eu limpava a areia de meus olhos e olhava para os fortes grilhões que amarravam seus frágeis caules ao meu braço. Como sofista que era, não havia conseguido notar como a liberdade, para mim, não passava de um conceito filosófico, enquanto que, para ela, como raposa, era uma necessidade vital.
Com lágrimas nos olhos, um aperto na garganta e uma dor dilacerante no peito, soltei as amarras.
Com esmero, o Príncipe-jardineiro podou sua florzinha, ajeitou suas pétalas, levantou o cercadinho ao seu redor e certificou-se de ter regado suficientemente suas raízes. Então, sem querer olhar para trás, recolheu suas ferramentas, deixou sua flor aos cuidados do Sol, e retomou a busca por sua rosa.
…
Em um outro mundo, uma estrelinha buscava, com todas suas forças, manter seu fraco brilho na escuridão indiferente do céu…
A maiden knight–to me is given
Such hope, I know not fear;
I yearn to breathe the airs of heaven
That often meet me here.
I muse on joy that will not cease,
Pure spaces clothed in living beams,
Pure lilies of eternal peace,
Whose odours haunt my dreams;
And, stricken by an angel’s hand,
This mortal armour that I wear,
This weight and size, this heart and eyes,
Are touch’d, are turn’d to finest air.
Publicado em Estória
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